Hoje tive um atendimento muito importante. Daqueles que renovam minha fé na vida.
Daqueles que fazem meu trabalho ter sentido.
Não porque foi fácil. Muito pelo contrário. Mas porque me lembram que a persistência vence. Que meu trabalho alcança lugares que, às vezes, parecem inalcançáveis — inclusive para a própria família.
Abandonar um caso nunca é uma opção.
Alguns processos são mais longos. E, quando respeitamos o tempo deles, vemos florescer.
É plantar a semente, esperar, regar, regar, regar… até que o fruto venha.
Vou te contar um segredo nem tão secreto assim…
Alguns pais ainda têm resistência em entrar na minha consulta. Muitas vezes porque acreditam que essa responsabilidade é da mãe. Outras porque sabem, lá no fundo, que cuidar da alimentação do filho inevitavelmente convida a olhar para a própria alimentação.
E esse convite nem sempre é confortável.
Porque falar sobre a alimentação da criança também significa falar sobre rotina, hábitos, cansaço, culpa, prioridades e tudo o que acontece ao redor da mesa.
É impossível cuidar da alimentação de uma criança sem tocar, de alguma forma, na alimentação da família.
É por isso que eu me apresento como nutricionista da família.
Mesmo que apenas seu filho seja meu paciente, é muito comum que você também transforme a sua relação com a comida.
E, para mim, é impossível não olhar para quem está sentado ao lado da criança.
Claro que isso traz desafios.
Mas também traz suporte.
Tem acolhimento, não julgamento.
Tem o possível, não o ideal.
Tem vida real. Vida corrida. Vida difícil.
E agora, mais uma missão: sair do automático na hora de alimentar a família.
Na consulta costumo dizer que esse processo é como atravessar a rebentação do mar.
No começo parece que cada onda derruba você.
Mas, quando passa dessa parte, tudo muda.
O novo jeito vai deixando de exigir esforço e se transforma no novo automático.
As frutas já entram no lanche sem precisar pensar.
Sempre existe uma salada pronta na geladeira.
Pelo menos um legume acompanha aquela refeição corrida.
E a família descobre que é possível comer em casa mesmo nos dias de cansaço, pouco tempo ou pouca vontade.
Essa família querida ilustra bem isso.
Durante algumas consultas conheci apenas a mãe do meu paciente de 11 anos.
Às vezes ela vinha sozinha. Em outras, acompanhada do filho.
Mas havia um terceiro integrante cuja presença fazia falta e tornava o processo um pouco mais lento: o pai.
Eu percebia essa resistência pelos relatos da mãe.
Então fui mandando pequenos recados.
Escrevendo observações nas orientações.
Gravando áudios direcionados a ele.
Aos poucos, ele foi chegando.
Percebeu que não seria julgado.
Percebeu que também poderia ficar melhor.
E veio para a consulta.
Pela primeira vez, estavam os três na minha sala.
Eu, a mãe, o pai e a criança. Era a família inteira.
Eu apenas fiz o que sempre faço.
Mas ele chegou no tempo dele.
E chegou disposto a ouvir.
Enquanto eu falava, com gentileza e sem apontar culpados, ele próprio começou a perceber coisas que antes passavam despercebidas.
Falou sobre si.
Sobre a dinâmica da casa.
Sobre mudanças possíveis.
Sobre soluções.
Não fui eu quem convenceu.
Foi ele quem se enxergou.
E isso muda tudo.
O pai deixou de ser um espectador e passou a fazer parte da mudança.
A criança ficou ainda mais engajada porque percebeu que o problema nunca foi só dela.
A mudança era da família inteira.
O peso saiu das costas da mãe.
Ela deixou de ser a única responsável por cuidar da alimentação da casa.
E a “chata”…
Bom, essa função eu assumo com prazer.
Sou eu quem organiza os primeiros passos.
Quem ajuda a construir novos hábitos.
Quem mostra caminhos.
Porque mudar pode ser difícil.
Mas não precisa ser pesado.
Meu trabalho existe justamente para tornar essa caminhada possível, leve e sustentável para toda a família.
